segunda-feira, 25 de julho de 2011

A versão musical dos fatos

Hoje eu estou aproveitando a roupa batendo na máquina de lavar para colocar a publicação de textos em dia.
E sim, para variar estou falando de Martha Medeiros...
Faz tempo que selecionei este texto para publicar por aqui, eu fiz sua leitura em um exercício do curso de teatro e o pessoal de lá também curtiu.
Veio calhar com a morte da Amy Winehouse, um talento e exemplo a não se seguir. Alguém cuja "versão musical dos fatos" é muito mais interessante.

Mitos
Os Beatles foram a minha Xuxa. Passei a infância ouvindo todos os discos do grupo, acompanhando os raros, inocentes e monocromáticos clipes que passavam na televisão, e também vendo-os no cinema. Naturalmente, tomaram-se um mito pra mim, assim como para o mundo inteiro. Então fui ler a célebre entrevista que John Lennon deu para a revista Rolling Stone em 1970, republicada recentemente em livro com o título Lembranças de Lennon. E lá está, a nu, um cara prepotente, que desprezava os demais integrantes do grupo, se autoendeusava e era obcecado por não fugir da realidade, ainda que não fizesse outra coisa. Meu ídolo.
A leitura do livro em nada mudou minha admiração pelos Beatles e continuo achando que Lennon foi uma das maiores feras do rock mundial. Sei que na ocasião o músico estava magoado com a reação pública diante de seu casamento com Yoko Ono, que foi considerada o estopim da dissolução da banda, e fez da entrevista um ato de desforra, mas o fez de maneira tão desastrada que e inevitável uma má impressão. Sujeito sincero, idealista, apaixonado, mas com certa vocação para marionete: entregou-se nas mãos dos empresários, nas mãos de Yoko, nas mãos de gurus indianos ... tanto clamou por liberdade, mas parece ter provado pouco desta droga.
É uma impressão pessoal e posso estar equivocada. O que me trouxe para este assunto e que ficou claro para mim que a arte e sempre superior ao artista, e que a angústia deste e igualar-se a imagem que projeta, um desafio desumano e inalcançável. A arte é soberana, o artista e um reles mortal. A arte emociona, o artista resmunga. A arte e única, e o artista tem os mesmos defeitos que a gente.
Uma atuação no palco sempre será mais digna do que uma briga de bar, uma letra de música sempre comoverá mais do que uma conversa por telefone, um bom quadro vale mais do que uma polaroide. A arte transcende, e o artista que tenta levar esta transcendência para seu dia a dia torna-se patético, vira personagem de si mesmo. Artistas comem omelete, vão ao banheiro, espirram, tem medo de assalto. E só são felizes quando não colocam em atrito sua genialidade com sua desoladora humanidade.
Gostei da entrevista de Lennon nas partes em que ele opina sobre o rock, quando ele diz que é uma música que agrada porque e primitiva e não tem embromação, mexe com as pessoas,  permite que a gente usufrua do nosso corpo, é pulsante, real. Exatamente por essas razões, o rock e meu gênero musical preferido. Mas quando ele fala dos Beatles, especificamente, volta a brigar consigo mesmo, fica tenso, como se buscasse dar a sua vida o mesmo status da sua arte. Passa a renegar os Beatles para poder ter vida própria. Luta para que, ao tomar-se um ex-beatle, não vire um ex-alguém.
Lennon foi assassinado dez anos depois da entrevista, aos 40 de idade. É um ícone, e seria mesmo que estivesse vivo e compondo mantras no topo do Himalaia. Entrevistas não importam nada, apenas satisfazem nosso voyeurismo. A arte é o que conta, é o que fica, é o que não morre, e o artista nunca e páreo pra ela. Os discos dos Beatles ora confirmam a entrevista de John Lennon e ora a desmentem. Na dúvida, fico com a versão musical dos fatos.


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